domingo, 1 de abril de 2012

A armadilha do ser moderno

Que o mundo está mais burro, eu diria - logo o coitado do burro, que nada tem com isso. Em um mundo cada vez mais interconectado, com tecnologias que não nos falta - mas também não nos completa - que tempo nos sobra? Nenhum, absolutamente nenhum!

Ora, se nosso destino é construir máquinas e manipula-las, o ser humano não é mais útil. Vamos ovacionar a rebelião das máquinas, que em tempo vindouro livrar-se-á da praga imprestável.

Se o apego à matéria nos dá o norte, de nada nos serve a arte, ter sentimento, rir ou chorar. Enclausurados nesta armadilha, em busca de ser moderno, perdemos a essência do existir.

A ciência parece ter usurpado o dom sagrado da natureza a que, outrora, nos conectávamos. Agora, só nos resta conectar a bits e bytes. Nem ao menos se sobra tempo para ir ao zoológico, dar pipoca aos macacos.

Impressionante, como as pequenas coisas da vida nos passa ao largo, um sorriso, a piada sem graça, o tremular das palhas do coqueiro, o canto do sabiá, nada disso tem mais valor que um pedaço de papel impresso no Banco Central. A menos que estejamos no fim da vida. Neste momento, um raio sobrenatural nos elucida, pergunte a um paciente que sofre de câncer terminal.

Ver a hora, ouvir o tic-tac ritmado, nada causa mais angústia. De súbito, vejo que horas são agora. Poderia, caro leitor, continuar a escrever por mais algumas laudas, mas não posso. Não há tempo. Preciso ir trabalhar.